O buraco é mais embaixo
Publicado em February 21, 2008
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Às vezes a gente lê algumas coisas, sente aquela certeza enorme de que concorda com tudo o que foi escrito, e depois pára pra pensar e conclui que as coisas possuem matizes muito mais perversos do que é possível perceber logo de cara.
Eu li esse texto do Contraditorium, a respeito do fechamento de quatro bibliotecas públicas em São Paulo pelo prefeito Gilberto Kassab. A justificativa para o fechamento foi de que as bibliotecas não possuiam retiradas suficientes e eram pouco freqüentadas pela população do bairro.
O Cardoso menciona nesse texto um post do Morróida a respeito de uma tal de Leidiane, que ficou conhecida como a Peladona do Funk depois de ter dançado nua em um baile aceitando uma aposta feita por um cantor.
Bom, por mais que eu sinta a tentação de concordar com os argumentos dos dois, basicamente - tem gente que pede pra se fuder - eu me lembro de várias situações que presenciei que fazem a gente pensar um pouco melhor sobre o que está acontecendo com o povo brasileiro.
Primeiro, lembro-me de um atendimento que acompanhei na Promotoria de Infância e Juventude lá em Londrina. Uma garota de pouco mais de quatorze, quinze anos, grávida, já com um ou dois filhos também. A promotora questionou a garota acerca de quem seria o pai da criança e ela respondeu que não sabia. Não que não tivesse certeza, não sabia mesmo, sem a menor noção. Eu me lembro de ter reparado nas condições em que a menina se encontrava. Suja, fedia muito, e tinha um olhar perdido, respondendo às perguntas da Promotora com frases curtas e bastante dificuldade.
A segunda situação foi um comentário que minha mãe fez a respeito da dificuldade que ela tinha de explicar a um pedreiro o lugar em que ficaria uma cama de alvenaria. Ela apontava o local na planta e gesticulava mostrando no chão e na parede o que se esperava como resultado final. O homem não conseguia entender de jeito nenhum. Mais tarde minha mãe me explicou que essa transposição, de um desenho em duas dimensões para a obra em três dimensões, é uma habilidade que requer estudo pra ser adquirida.
Pois bem, o meu ponto de vista aqui é o seguinte. Não dá pra esperar um comportamento de uma pessoa quando esse comportamento presume um determinado cabedal de conhecimentos. Atitudes que pra uma pessoa estudada parecem óbvias, como dispensar o telefone em caso de necessidade, podem não ser tão claras pra uma pessoa de pouco estudo.
A questão de os pobres preferirem funk a uma leitura tem mais a ver com a facilidade de assimilação do que com uma falha inerente de caráter. Programas de qualidade passam em horários absurdos. A televisão brasileira vem, num processo de mais de trinta anos, baixando o nível de complexidade de seus programas para se adequar ao gosto da população. O problema é que como o conteúdo de menor qualidade gera dinheiro ele acaba sendo priorizado, e como as pessoas são acostumadas desde cedo a aceitar esse tipo de coisa um futuro rebaixamento na qualidade será recebido com muito mais complacência. Até os níveis de bizarrice que a gente acompanha hoje em dia.
Comentários
2 Responses to “O buraco é mais embaixo”
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É mais fácil ignorar tudo isso, por que dá muita dor de cabeça só de pensar. Dá raiva, a gente fica puto, depois sente pena…
Pena que o cara fechou as bibliotecas. Talvez valesse mais a pena investir pra criar esse hábito nas pessoas de lá.
Perfeito cara, perfeito. Concordo contigo em cada palavra.