Napalm Death ao vivo, só alegria

Publicado em October 29, 2007
Resenhas |

Como resenhar um show em que você, ao invés de prestar atenção atentamente a detalhes como qualidade de som, iluminação, pontualidade, repertório escolhido e outras firulas, resolveu aproveitar a oportunidade única tomando porrada lá no gargalo?

A noção do que estava por vir só bateu no momento em que eu cheguei ao Hocus Pocus, e esperei a hora de abertura na porta. Eu assistiria dali a pouco a um show do Napalm Death[bb]. É desnecessário falar sobre a importância e relevância da banda no cenário, basta dizer que os caras são criadores e principais representantes de um estilo pra lá de controverso, o Grindcore. Histórica, não no sentido de dinossauros, expressão que muita gente ainda insiste em usar e que considero nojenta, mas de essenciais.

O local do show, o Hocus Pocus, é um ponto bastante conhecido em São José dos Campos, que abriga shows dos mais variados estilos, sempre alternativos. É pequeno, acústica razoável, e tem aquele clima de pub, só que ainda menor. O palco era apenas um pequeno elevado, pouco largo. A aparelhagem condizia com o peso da apresentação.

A abertura do show ficou a cargo das bandas joseenses Inima e Lockfist 669. Estilos diferentes, metalzão moderno à la Machine Head do Inima, death metal pesadão do Lockfist 669. Ambas fizeram shows enérgicos, com muito boa presença de palco e ótima qualidade técnica dos músicos. Como sou mais da praia do death metal, acabei por curtir mais o Lockfist, mas as duas bandas agradaram em cheio ao público, que surpreendentemente não ficou gritando pela banda principal, como costuma acontecer.

Após as bandas de abertura, uma espera de pouco mais de 30 minutos e o Napalm Death entra estuprando os ouvidos de todos, menos os meus por que eu estava conversando do lado de fora (dããã), e por isso perdi a primeira música, que acho que foi a maravilhosa Sink Fast Let Go, por causa dos vocais esporrentos do Mitch Harris. Bom, entrei no salão do show, dei uma olhada no fudúncio que estava acontecendo e pensei ‘Fico aqui atrás e presto atenção, ou vou lá pra frente tomar porrada?’, resolvi pela segunda opção.

Como eu disse, o lugar é pequeno, o palco baixo, e essa combinação, como qualquer fã de metal sabe, é geralmente uma daquelas apresentações em que banda e público praticamente se tornam uma massa de gente sem controle. Coitados dos seguranças, a ordem expressa era de que se alguém subisse no palco a banda sairia de cena na hora. Já imaginaram o desespero dos caras? Bom, basta dizer que eu consegui a muito custo ficar a apenas um braço de distância de Barney Greenway, a lenda. Minha santinha, o que é o vocal desse cara? E o que dizer da presença de palco? Ele é alto, desengonçado, fica andando de um lado pro outro sem parar um segundo, balança a cabeça do jeito mais estranho que já vi. E não dá pra desgrudar os olhos do cara. Um monstro. Os outros integrantes, Mitch Harris, Shane Embury e Danny Herrera têm uma presença mais contida no palco, mas sempre com aquela atitude de olhar para o público como se estivesse querendo matar alguém dali do meio.

A técnica dos caras é impressionante, mesmo sendo o som do Napalm estruturalmente simples. Execução perfeita de clássicos como Siege of Power, Unchallenged Hate, Suffer the Children, Hung, Instruments of Persuasion, e da surpresa, Well All is Said and Done. Quanto a essa música, vale dizer que a reação do público foi simplesmente assustadora. Nessa hora eu tive que dar uma corridinha mais para trás, minhas costelas estavam pedindo arrego. Dá pra dizer que os caras compuseram mais um clássico. Segundo um colega meu, eles tocaram até a You Suffer, mas eu perdi também. Devia estar tentando me recuperar de alguma cotovelada nas costelas. Ah, e o cover de Nazi Punks Fuck Off, não poderia faltar, levou a galera ao delírio.

Tem muito mais coisas, mas eu não tô lembrando agora, eu estava bêbado e tomando porrada por todos os lados. Uma coisa é certa, eu saí de lá sem muita noção do que tinha acontecido, encharcado de suor, todo quebrado, e se pudesse viajar com os caras pra Inglaterra e passar um ano assistindo aos shows deles eu faria. Beleza de ano sabático hein?

Mas nem tudo são flores. Por isso eu deixei pro finalzinho. Infelizmente, o tratamento dispensado às bandas de abertura pelo Mitch Harris não foi muito legal não. Saca só a ignorância do cara. Ele iria usar um amplificadorzinho chulé pra fazer o show, daqueles em que o som da guitarra parece um pernilongo. O guitarrista de uma das bandas de abertura gentilmente cedeu o seu amplificador pra ele usar. O cara passou o som, deixou tudo uma beleza, a guitarra soando como um trator, e falou que não era pra ninguém mais mexer no amp. Nem mesmo o próprio dono. Nem preciso dizer que ele não conseguiu insistir muito tempo com a palhaçada né? Acabou concordando em dividir o que não era dele. Ah, a exigência de ninguém subir no palco? Dele também. Fobia de gente, segundo ele. Agora me fala, como é que um cara toca numa banda do estilo do Napalm Death e tem medinho de gente? Cada uma que me aparece.

Bom, mas nem isso conseguiu tirar o brilho do show. A gente sempre diz que o último foi o melhor que já assistimos, não é mesmo? Eu fui ao Metallica na turnê do And Justice for All[bb], ao Kreator, na turnê do Coma of Souls[bb], e vários outros. Mas, sinceramente, esse, talvez pela combinação de uma banda foderosa num lugar pequeno, foi o melhor até hoje, mesmo.

Siege of Power pra vocês, só pra dar um gostinho.

PS: Já estão rolando resenhas de shows do Napalm em outras cidades. O site Zona Punk publicou uma da apresentação em São Paulo, à medida em que forem publicadas outras resenhas eu atualizo as coisas aqui.

Tags: Death Metal, Grindcore, Napalm Death, show

Comentários

6 Responses to “Napalm Death ao vivo, só alegria”

  1. Diego Matias on October 29th, 2007 9:06 am

    Cara… eu ainda não ouvi metade das bandas que você resenha aqui, mas ler sobre esse show dá uma puta vontade… Vou conferir, claro!

    P.S.: O que eu não dava pra ver o Metallica no And Justive For All.

  2. Alexandre on October 29th, 2007 10:10 am

    E aí Diego, beleza?

    Eu recomendo que você dê uma passada pelos arquivos do blog, tem muita coisa boa. Não é tudo que eu gosto, tem muita banda de metal que é derivativa, ou simplesmente chata. Mas as que eu posto aqui no blog são na maioria legais.

    Quanto ao Metallica, tenho uma historinha pra contar, mas depois.

  3. LOCKFIST 669 on October 29th, 2007 3:19 pm

    Este show realmente ficou pra história aqui em SJC.

    Alexandre,vc considerou que talvez tenha sido o melhor show da sua vida, imagina pra mim então que fazia aniversário no dia e ainda por cima tive a honra de abrir o show deles com a minha banda??? ainda estou tentando entender todo o massacre sonoro que aconteceu…rs

    O Napalm Death foi destruidor, simplesmente a casa caiu!!! faltaram alguns clássicos, mas nada que tire o brilho dessa que é sem dúvida a maior banda de Grindcore de todos os tempos!!!

    Quanto ao Mitch Harris, tenho que dizer que ele estava com algumas, digamos “frescuras” no dia…porém, parece que aconteram algumas coisas desagradáveis com ele e o público no show do dia anterior em SP(subiram no palco, machucaram ele, desplugaram os pedais todos com os pés, etc), Enfim, o cara devia estar puto mesmo! O lance do Ampli ele viajou mesmo, mas logo que eu expliquei a situação pra ele ele voltou atrás… Estrelismos à parte, tenho que defender o cara apenas em uma coisa: ele foi muito gente boa comigo na passagem de som, inclusive tocou com a camiseta da minha banda no show deles.. Enfim, das duas a uma: ou ele é um cara bacana que estava tendo um dia ruim, ou um escroto que teve alguns surtos de boa gente…rs

    abraços!!!

  4. Marcos A.T. Silva on November 12th, 2007 8:19 pm

    Caramba, lendo esse seu post me bateu uma nostalgia imensa, e confesso que fiquei um tempão sentado e relembrando o passado, na época em que ía a shows e voltava pra casa todo quebrado e bêbado, mas “feliz”. :) Naquela época em que muitos shows ainda eram em estádios, os ingressos eram muito mais baratos, e tal.

    Me lembro até hoje do show do Metallica no Parque Antárctica, creio que em 1993, um dos shows “memoráveis” em minha vida. Foi memorável pela “zona”, pela bebedeira, e também por ter sido minha única oportunidade de ver o Metallica enquanto ainda dava pra considerar os caras uma banda sincera, mesmo que o Black Album não fosse lá essas coisas (mas tem boas músicas ali).

    Parabéns pelo blog. Já está no meu Google Reader. :)

  5. dentepreto on November 12th, 2007 9:07 pm

    E aí Marcos, beleza?

    Obrigado pelo comentário. Realmente, ir a shows é uma experiência divina. Mas, só uma pergunta, por quê você não vai mais a shows? Por causa dos preços? Tem muita banda brasileira batalhando por aí, com preços de ingressos bem acessíveis. Concordo que o preço de shows internacionais está cada vez mais uma piada, mas o Metal corre nas veias, não dá pra ficar muito tempo sem um showzinho.

    Ah, eu fui ao Metallica também, só que no de 89, na turnê do …And Justice For All. Meu primeiro show, inclusive tem historinha, depois eu conto aqui no blog.

    Abraço.

  6. Marcos A.T. Silva on November 13th, 2007 7:08 am

    Olá, Alexandre!

    Então, não é pelo preço, é que tem aquela coisa de casamento, a patroa não é lá muito amiga dessas coisas, etc e tal…hehehe Então, fico só na vontade. Mas ainda dou meu grito de liberdade e vou a algum…rsrs

    Então, nesse de 89 do Metallica eu não fui, infelizmente. Mas fui em um monte, tanto grandes shows quanto pequenos. Fui no Monsters of Rock de 94, quando veio o Slayer, Kiss, Sabbath (com o Tony Martin, mas era o Sabbath…rsrs), etc. Foi um tremendo de um show, valeu muito a pena.

    Mas o metal realmente corre nas veias, e uma vez “convertido”, o cara não abandona mais…rs Nisso eu concordo.

    Abraços!

Leave a Reply